AMOR SELVAGEM

CONHECIMENTO BRUTO

​À MÃO (LIVRE)

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A natureza messiânica da arquitetura feita no Brasil seria impensável sem as janelas abertas pelos escritores do Realismo Mágico Argentino

A mitológica origem do Brutalismo Brasileiro, um topos ouranius dentro da história da arquitetura, é provável que siga outro texto, “A Mítica Fundação de Buenos Aires”, de Jorge Luis Borges. O mito, em uma das suas versões apócrifas, atribui a um arquiteto argentino a obsessão por monolitos únicos que tentam abranger geografias artificiais intransponíveis. Seu nome, Amancio Williams; o prédio fundacional, uma casa sobre um riacho; o ano, 1942. Mas já que São Paulo pode muito bem ser a maior cidade do território autônomo da megalópole de Buenos Aires, nós todos acabamos dando de ombros. O Realismo Mágico possibilitou toda a arquitetura moderna no sul do Equador. Tupi foi encarregado a escrever outro capítulo do mito, algo como uma pequena tentativa de revolução, ou um plot twist dentro da estrutura do mito. O enredo, dessa vez, não tinha riacho. A tarefa não demandava nenhuma ponte e nós não éramos argentinos, oficialmente falando. Mas a ideia de construir uma casa-manifesto (toda casa é um manifesto) era a única analogia restante na mesa.

O Produtor desse futuro longa metragem nos informou sobre algo clássico e moderno. Esses são dois sinônimos que, ao mesmo tempo, são um oximoro. Clássico é moderno, e clássico é o oposto de moderno, simultaneamente. Mecânica quântica tomou controle da narrativa que estava já nas mãos de escritores kafkianos. O Produtor queria fazer o filme através da perspectiva de um certo Macedonio Fernández, o mitológico mestre de Borges, que é o mestre de todos nós. Uma figura errática que elusivamente tentou traduzir Buenos Aires em um romance. Essa é a espinha dorsal do livro: Romance do Museu da Eterna. O texto então tornou-se o enredo para o projeto. Para alguns intérpretes, Buenos Aires é e sempre será a infinita biblioteca de Babel de Borges, ou o definitivo labirinto de espelhos. Foi dessa forma que Borges perpetuou a obra de Macedonio. Tupi teve que entrar no trem enquanto ele estava correndo disparado. O lugar a ser construída essa casa de família no interior de Buenos Aires, essa Estancia, magicamente encontrou, na realidade, a extensão ad infinitum na avenida Diagonal Norte. Algo que até mesmo Le Corbusier tentou quando visitou a cidade.

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O produtor, já um dos grandes amigos de Tupi, sempre sorri para nós como se ele soubesse desde o primeiro dia, para que a coincidência da Diagonal Norte encontrando o distante terreno fosse apenas uma charada que ele havia tramado como um teste para saber se éramos aptos para o desafio. Nós continuamos. A extensão do grid ad infinitum foi um segundo passo bem implícito e inscrito no roteiro a não ser perseguido. O dito da “casa como cidade” tornou a “casa como manzana” (um quarteirão tem esse peculiar e complexo apelido em espanhol). Então preencher os vazios ou preencher a propriedade ficcional do projeto de alguém tornou-se como um prólogo junto aos mais de 50 prólogos do romance de Macedonio. Arquitetura brasileira como outro prólogo. Alguns fragmentos do mito tentaram ter um cameo dentro do grid. Fragmentos de arquitetos da França revolucionária (sendo Buenos Aires o último arrondissement da espiral parisiense quando esta encontra a infinidade do projeto babeliano) também se esgueirou para a mesa de desenho como se o flâneur brasileiro fosse tomar o Realismo Mágico de forma súbita e tentar um golpe digno de Boullée ou Ledoux. Pátios en-abîme. A casa foge como um unicórnio mágico.